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Opinião em Foco: O poder de uma geração

Dia desses alguém me perguntava se Coxixola tinha escolas particulares, justificando que os alunos que dali vinham, de modo geral, eram esforçados e engajados com movimentos políticos e sociais – referindo-se, nesse sentido, aos Festivais de Arte e Cultura promovidos pelos estudantes. Num tom de brincadeira, respondi que era o “poder de uma geração”. Evidentemente, a resposta fora demasiado insuficiente e não corresponde com a verdadeira causa desse fenômeno – ou pelo menos não o responde em sua totalidade. Mas essa resposta me trouxe uma reflexão: em que medida as gerações influenciam a vida das pessoas?

Se voltarmos um pouco no tempo, podemos perceber que as gerações têm marcado inúmeros momentos históricos diferentes. Por exemplo, não se pode falar nas décadas de 60/70 sem lembrar-se do auge da MPB no Brasil, ou os anos 80 com o povo nas ruas na luta pela redemocratização do país. Esses eventos históricos já nos mostram de pronto dois elementos construídos histórico-socialmente, o gosto e o pensamento, cujo processo de constituição se dá numa época específica, logo, numa geração. Outros exemplos como movimentos literários, artísticos, culturais, “escolas de pensamento”, “de pesquisa”, etc. tem influenciado os rumos da história. Torna-se, assim, indubitável a ideia de que as gerações conduzem nossos modos de pensar e agir.

Numa perspectiva menos abrangente e mais específica, percebe-se que o grupo de jovens da igreja, da pelada no fim de tarde, do ônibus da escola, da farra no fim de semana, dos colegas de trabalho, etc. são fundamentais na condução de nossos gostos, paixões e volições. Segundo o sociólogo Émille Durkheim, esses grupos são imprescindíveis na manutenção duma ordem social - ou, usando sua expressão, de coesão social-, pois, são eles responsáveis pelo compartilhamento duma consciência coletiva, isto é, uma espécie de pensamento ou ética generalizada, comuns a uma determinada parcela da população que orienta, por sua vez, as ações desses indivíduos.

Por isso, a geração ou grupo social a que pertencemos terá incidência decisiva sobre todos nós durante a vida. Voltando ao episódio inicial, quando respondi que fora o “poder de uma geração” que marcou/marca nossas relações afetivas e sociais, eu justificava, involuntariamente, que uma geração marca de forma incisiva a vida de cada um que a compõe. É através dela que se responde à pergunta que é lema dos seres humanos dia-a-dia: “A que causa dedicar a minha vida?”.

Por Mesias Ramos
Publicado por: kkk
Em 5 de maio de 2015

Opinião em Foco: Panorama socioeconômico do Município do Congo

Continuando com alguns dados das escolas do Cariri paraibano, lançarei um genérico olhar sobre a realidade educacional da cidade do Congo.Para “olhar” essa realidade, tomarei como ponto de partida a Escola Estadual Manoel Alves Campos cuja faceta educacional se revela pertinente, uma vez que é a escola com o maior número de alunos dentro do munícipio.Por isso, este “olhar” pretende chamar a atenção para a realidade, sem a pretensão de generalizar, mas sem também negligenciar tal contexto.

Dito isto, começo por analisar alguns dados socioeconômicos. O município do Congo-PB tinha aproximadamente 4.687 habitantes em 2013. Até o final de 2014, o IBGE estimavao patamar de 4.775 munícipes. Desse contingente, encontram-se 59,5% acima da linha de pobreza.Em outras palavras, a maior parte da população congoense sobrevive com uma renda per capita superior a R$ 140,00. Ademais, 20,8% encontram-se na linha de pobreza e indigência e o restante (19,7%) vive com menos de R$ 70,00 per capita (Fonte: IDEME).

Percebe-se, portanto, que o município teve um solapamento de sua pobreza bastante significativo nos últimos anos. Entretanto, do ponto de vista da qualidade de vida da população, ainda encontra-se na classificação de municípios que contêm uma baixa qualidade de desenvolvimento humano, obtendo um IDHM de 0,581 em 2010 (Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil).

Isso representa um bojo bastante diferenciado no que se refere aos últimos anos do município. O Congo, como outros munícipios do cariri,conseguiu arrefecer a péssima qualidade de vida nos últimos dez anos, evoluindo de 0,441 em 2000 para 0,581 em 2010, o que representa um acréscimo de 31,75%. No entanto, ainda está na classificação de baixa qualidade de vida, elencado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Nesse mesmo lapso de tempo - de dez anos –pode-se verificar que não houve uma evolução equitativa da educação, quando comparada a redução da desigualdade social e melhora na qualidade de vida dos congoenses. Por exemplo, o número de ingressos nas escolas do município vem decrescendo nos últimos anos em contraposição do crescimento da população, como demonstrado anteriormente.

Gráfico 1. Número absoluto de Matrículas. Fonte. IBGE.

Porta-estandarte que, nos últimos anos, o número de matrículas nas escolas vem decrescendo, sobretudo no que diz respeito ao Ensino Médio. Esse quadro reflete-se diante de realidades de municípios bastante similares como o caso do município de Coxixola, já demonstrado em outra ocasião.

Segundo o IBGE, há escolas privadas de Ensino Fundamental, contudo, para o Ensino Médioo município dispõe apenas da EMAC, ligada a rede estadual de ensino. Dessa forma, mesmo havendo escolas privadas,em tese, os alunos deveriam passar pela escola de Ensino Médio existente no município, o que não corresponde aos números analisados, pois grande parte dele servai-se durante esse período. Em outras palavras, dos alunos que ingressam no Ensino Fundamental, menos da metade consegue chegar ao Ensino Médio. Uma correlação que não atrela-se ao fator econômico e financeiro, pois, ao mesmo tempo que o Congo saiu dos baixos indicadores sociais, não apresentou o mesmo ritmo na Educação.
Esse “resultado”, portanto, é decorrência de inúmeros fatores. Mesmo assim, podemos conjecturar um deles: a saída desses alunos para o ingresso cedo no mercado de trabalho. Apenas para elucidar tal hipótese, peguei alguns dados do IBGE concernentes ao trabalho infantil no mesmo município. Dos 4.775 habitantes, 723 (10 a 17 anos) exercem algum tipo de atividade ligado ao trabalho, representando, dessa forma, 15,1% da população. Esse número parece irrisório, mas quando essa faixa etária é estendida para pessoas com 10 a 19 anos (idade que os alunos deveriam estar na escola) há um aumento significativo, correspondendo por sua vez a 80,4% dos jovens congoenses inseridos no mundo social do trabalho (Fonte: IBGE).

Outra variável que demonstra a realidade da Escola Manoel Alves Campos é a nota do IDEB que decresceu no ano de 2013, para o Ensino Fundamental. A Escola conseguiu atingir as metas projetadas pelo Ministério da Educação em 2007 e 2009, tendo 3.0 e 2.9, respectivamente. Contudo, em 2013 não conseguiu alcançar a meta projeta, que era de 3.3,obtendo apenas 2.7, um número menor que os anteriores.

Gráfico 2. Nota do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Fonte: INEP.

Esses dados revelam, ainda que de modo genérico, o quadro amplo que se insere a Escola Manoel Alves Campos. Percebe-se, portanto, um município que vem evoluindo cada vez mais economicamente. No entanto, do ponto de vista social-igualitário tem-se ainda muitos caminhos a percorrer, sobretudo no quesito educacional.

É inegável que a Escola obteve, também, grandes progressos nesse período, mas faz-se necessário pensar os eventuais “problemas” que a Escola vem enfrentando para buscar possíveis soluções.E nesse sentido, os números são importantes para pensar essa realidade complexa e multifacetada que se encontram diversas escolas do Cariri Paraibano.

Por Mesias Ramos
Sociólogo UFCG
Publicado por: kkk
Em 21 de dezembro de 2014

Opinião em Foco: Sia Filiça, cadê a lenha da fogueira?

O colunista Mesias Ramos vem falar sobre a decadência das verdadeiras festas juninas.

Confira na íntegra:

É chegada a época junina. No Nordeste, isso deveria ser sinônimo de forró, comidas típicas, quadrilhas, trajes a caráter, etc. No entanto, o que temos percebido nas “festas juninas”, são verdadeiros eventos travestidos de “tradicionais”, quando na verdade, são bem diferentes daquilo que caracteriza nossa cultura.

Não é difícil encontrar em plena época junina “forrós de plástico”, funks, sertanejos, etc. Por isso, não será novidade para o leitor, saber que nossas festas estão imbuídas de ritmos desconexos com nossa cultura, que, não obstante, tem substituído nossos ritmos.

Os festejos juninos têm sido, comumente, palco de promoção para muitos indivíduos, menos para preservar o patrimônio cultural do nosso povo. Basta olhar para os grandes eventos realizados em nosso Cariri, cujas atrações custam uma fortuna e trazem apenas a cultura de um grupo social que não é o nosso.

Há quem defenda – inclusive nas universidades – que devemos relativizar e escutar todos os estilos ou provar todos os gostos. Se isso é verdade, formulo a seguinte questão: o que caracteriza o grupo social, “nordestinos”?Se, por exemplo, o “forró de plástico” não representa o que de fato é nossa cultura, então, esse não servirá para classificar como patrimônio cultural, logo, não faz parte de nossa identidade. Se, por outro lado, dissermos que “sim”, que todos os ritmos representam a nossa cultura caímos num subjetivismo no qual incluímos todas as culturas e perdemos de vista aquilo que é nosso.

Se a cultura de massas não tem uma preocupação em deixar “marcas”, por assim dizer, então, não será na efemeridade de seu jeito de ser, que buscará representar o povo nordestino, sobretudo no mês de junho. Por isso, nossos festejos, estão mais para “eventologias” cujo objetivo é oferecer às massas uma política de “pão e circo”.

Como justificativa para esses eventos, são utilizados os mais diversos discursos: “todos os jovens gostam disso”, “que esse é o ritmo da galera”, “que o povo gosta de coisa ‘moderna’”, etc. Em nome de um “bem comum” costuma-se enquadrar as minorias, transformando numa “tirania da maioria” que negligencia o direito dos poucos.

Os que defendem esse tipo de cultura dirão que não podemos querer moldar os gostos e que ‘eles’, também, deverão ter seu espaço, pois do contrário, privaríamos o direito de liberdade de todos. Têm razão! O que pretendo alertar, enfim, é para uma cultura unilateral que deixa de lado – mesmo havendo maciças manifestações, da quais não busco generalizar – o patrimônio cultural do nosso povo em nome duma modernização, que efetivamente não representa o Nordeste.

Por Mesias Ramos
Sociólogo pela UFCG
Publicado por: kkk
Em 14 de junho de 2014

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