Não somos obrigados a colaborar com essa devassidão
Como os dias se passam rapidamente! Nesse mesmo período do ano passado, aqui me encontra expressando minha opinião sobre o São João dos nossos dias. Ponho-me a expressar mais uma vez minha idéia sob os olhares atentos e reprovadores de muitos. Há quem me chame de retrógrado, intolerante, etc. Há até quem diga que eu não respeito o direito e as opiniões dos demais. Pelo contrário. Respeito extremamente os pensamentos de outrem. É justamente por respeitar o julgamento dos meus irmãos que eu tenho a liberdade de apregoar a minha. Graças a Deus e a muitas pessoas na nossa história, nós temos este direito, este livre-arbítrio de expressão. Sinto este desejo de exprimir minhas apreciações com a finalidade de que muitos possam ser conhecedores do que penso e do que defendo.
Então vamos lá.
No ano passado eu falava sobre os eventos que são realizados no período do mês de junho, que aqui no Nordeste é tradicionalíssimo. O São João é uma grande festa. As famílias se encontram, servem comidas típicas, dançam a tradicional quadrilha junina, arrastam o pé com as belas melodias dos nossos forrozeiros. Canções que trazem a vida do povo nordestino. Alegria e cultura marcam o São João no Nordeste. Espera aí! MARCARAM! Vou ser mais otimista: isso é algo que ainda acontece raramente nos sítios, chácaras do interior dos estados naquelas famílias sensatas que amam a cultura e as vezes em alguns municípios que têm seus administradores mais sensatos e inteligentes.
A maioria de nossas atuais administrações públicas não promove nenhum pouco de cultura, logo a parte que ainda promove é diminuta. Afirmo isso porque analiso os eventos que são realizados em vários municípios paraibanos neste período junino. Em alguns deles verifiquei que os símbolos do São João não estão mais presentes. No ano passado fui alvejado por críticas diante de minha opinião sobre uma festa realizada em um dos municípios que pesquisei, onde queriam promover um “São João antecipado”. O evento foi chamado de “1º Festival Folclórico”. Mas que absurdo! A princípio não poderia ser chamado de São João antecipado, porque nem parecia com São João. Em segundo lugar ser chamado de festival folclórico, isso foi uma afronta a nossa inteligência.
Uma grande estrutura armada no centro da cidade. Se houvesse o mínino bom senso poderia se fazer um belo evento que representasse nossa cultura. Pena que isso não sobreveio. Nas noites de festa lá se concentra uma multidão; primeiro presenciam um comício (claro os políticos nunca vão perder a oportunidade de lucrar com isso). Depois dos discursos começa a principal parte do espetáculo. Duas ou três bandas começam a demonstrar a sua falta de criatividade em cima de um palco. E repito: eles não têm a mínima criatividade. (aqui me refiro às bandas de forró estilizado) Inicialmente porque essas bandas de forró estilizado – como chamam por aí – distorcem tudo o que há de belo numa canção. O ridículo é tão grande que eles nem se atrevem a compor músicas porque quando fazem é um verdadeiro desastre. Quer uma prova? Toca-se uma por aí com o seguinte refrão: ESCORREGOU? É MELHOR CAIR! (e ficam por minutos e mais minutos dizendo a mesma coisa). Dou mais um exemplo: nos últimos dias tem até música falando da posição da rã. Se eu fosse aqui expressar os absurdos cantados por eles seria preciso muitas páginas.
Um governo – seja ele municipal, estadual ou federal – tem por obrigação de promover a ordem na sociedade. A promoção dessas festas, com este tipo de bandas, além de acabarem com a ordem, deseducam mais ainda aqueles que já têm a cabeça vazia. Digo isso porque é o que essas imitações de banda fazem em cima de um palco. Promovem a promiscuidade, incentivam a violência, retiram de dentro de todos o escrúpulo, os bons modos, a educação que nossos pais nos deram. Eles sobem no palco e gritam pra multidão incentivando a bebedeira desordenada. Convidam os homens e as mulheres traídos a buscarem a vingança. Eles não têm o mínimo respeito por nada, mas todos os anos, nossas prefeituras e demais governos lá estão enchendo o bolso deles com o nosso dinheiro.
Nesse momento de meu discurso surge o seguinte ponto: muita gente gosta de tudo isso e aderem, pois em todos os eventos com essas bandas multidões os seguem. Tudo bem! É uma pena que muitos sejam sem consciência. Pois então se eles têm o desejo de estar atrás de tudo o que não presta, então que paguem por isso. Que ponham a mão no seu bolso e tirem o suado dinheiro da semana de trabalho, do mês de serviço e dê aos grandes empresários que lucram de uma forma exorbitante com os fãs enlouquecidos por esta falta de criatividade. O povo em geral não é obrigado a pagar, ou seja, a contribuir com tudo isso. Porque quando se coloca uma banda como essas nas ruas, numa festa aberta, a administração pública tira o dinheiro do cofre público e entregam para esses ricos empresários. E o dinheiro que está nos cofres públicos é dinheiro do povo. Ou seja, mesmo os que não compactuam pagam para que a desgraça tome conta de tudo. A administração pública deve promover a cultura, o lazer, mas isso não é cultura. Isso não é lazer, isso é promover a desorganização social conduzindo uma sociedade manchada pela desgraça cada vez mais a perdição.
Depois de uma noite de bagunça nossas cidades amanhecem sobre a penumbra de imundice. Lixo por cima de tudo. Um mau cheiro insuportável e o pior de tudo, tudo isso foi promovido com o nosso dinheiro. O dinheiro que poderia melhorar a vida de muitos, que poderia melhorar nossa segurança pra que não tivéssemos que pagar para seguranças vigiarem nossas casas. Dinheiro que poderia ser investido em saúde pra que nenhuma criança morresse engasgada com um caroço de feijão por falta de um anestesista. Dinheiro que poderia melhorar o salário de nossos educadores para que não precisassem fazer greve reivindicando seus direitos. Dinheiro que poderia ser investido na construção e melhoramento de creches para que as mães pudessem em deixar seus filhos enquanto lutam pelo pão de cada dia.
Neste ano presenciaremos estas coisas mais uma vez. E novamente as cenas se repetirão. Será que ainda existe chance de mudança pra melhor? Quem vai saber. Mas uma coisa eu afirmo: enquanto consciência eu tiver e capacidade de expressar minha opinião eu o farei. Sou admirador da cultura nordestina, do verdadeiro forró, da pamonha e da canjica. Sou fã de Luiz Gonzaga e Marinês. Sou apaixonado por Sivuca. Eles sim trazem em sua bagagem o respeito e o amor pelo nosso povo. Tiro hoje o chapéu e faço minha homenagem a todos os cantores e artistas de nossos dias que utilizam de seu dom para valorizar o que nosso povo mais tem de bom e bonito que é o respeito e a cultura.
Wellington dos Santos
Graduando em Filosofia pela UFCGCariri em Foco
