Cochonilha causa prejuízo de R$ 500 milhões e atinge 54 municípios da Paraíba, 12 do Cariri

A praga da cochonilha do carmim que ataca as plantações de palmas forrageiras, já devastou mais de 100 mil hectares em 54 municípios da Paraíba, causando um prejuízo de quase R$ 500 milhões. São cerca de 10 mil produtores rurais prejudicados pela destruição nos palmais e que estão sendo obrigados a buscar formas alternativas para a sobrevivência dos animais, principalmente do gado. Os prejuízos provocados pela ação do parasita também gera desemprego e reduz a renda, principalmente em 12 municípios do Cariri Ocidental e Oriental, onde a devastação já é quase 100%.
Nessas localidades, o problema é ainda mais grave porque os agricultores têm a agricultura e pecuária como suas principais atividades econômicas. Além do Cariri, os municípios da área compreendida pela Serra de Teixeira também foram afetados. Em toda Paraíba restam apenas 80 mil hectares de palmas que inclusive já estão sujeitas ao ataque da cochonilha. Com a velocidade de propagação da praga, é possível que essas áreas remanescentes também sejam dizimadas em até um ano.
Para minimizar as dificuldades enfrentadas pelos agricultores, técnicos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater–PB) junto com pesquisadores da Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária da Paraíba (Emepa), tem buscado soluções para sanar as dificuldades.  Como ainda não existe no mercado rural nenhum tipo de defensivo agrícola capaz de combater a cochonilha, os pesquisadores e extensionistas rurais estão procurando introduzir nas áreas afetadas, uma espécie de palma conhecida como PB1, que geneticamente é resistente à praga. Porém, a planta só existe no Sertão da Bahia e custa até 50 centavos por raquete. Para obtê-la, o agricultor precisa de recursos financeiros, transporte e manuseio do produto, até às áreas rurais da Paraíba.
De acordo com o pesquisador da Emepa, Edson Batista Lopes, a cochonilha é uma praga de origem mexicana e que foi introduzida no Brasil pelo Estado de Pernambuco, para fins comerciais. “A praga da cochonilha é usada no exterior para produção de carmim, uma substância aproveitada para dar coloração a objetos, como batons, guloseimas como sorvetes e outros derivados. Ao ser trazida para o Brasil, os responsáveis perderam o controle biológico e as populações aumentaram e se espalharam por todas as áreas, principalmente Pernambuco e Paraíba”, explicou o pesquisador.
Edson explicou que na região do Cariri Ocidental, praticamente toda área em que existia o cultivo de palma forrageira, foi devastada e com isso, milhares de agricultores estão sendo obrigados a conviver com os problemas. Ele disse que como ainda não existem formas mais eficientes de combate a praga, e a solução mais plausível para o momento é a substituição das palmas afetadas pela espécie PB1 mais conhecida como “palma doce”, os orgaos responsáveis tem se dedicado ao máximo a busca da incorporação destas espécies para reduzir as dificuldades, que tem aumentado imensuravelmente na região, que já sofre com a seca.
Conforme Edson, a Emepa em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Ministério de Ciência e Tecnologia e o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), conseguiram ano passado através da criação de um projeto, recursos de até R$ 400 mil para pesquisas e compra das folhas de palma resistente.
O dinheiro já contabilizado e só falta à liberação para que os pesquisadores efetuem a compra de aproximadamente três milhões de raquetes. “Graças a estes recursos foi possível comprar as folhas da palma de espécie PB1 e distribuímos para agricultores da região do Cariri ocidental, onde a devastação foi maior. Agora estamos em busca de novos recursos porque a cochonilha tem se alastrado pelas regiões e será necessário maiores investimos para viabilizar melhores condições para os agricultores afetados e também os outros que ainda não foram afetados pela praga”, comentou Edson.
R$ 980 mil para compra de mudas
Edson Batista ainda destacou que foi aprovado este ano, um projeto, desenvolvido pela Emepa, em parceria com outros órgãos e aprovado pelo Governo do Estado, que deverá viabilizar até R$ 980 mil em recursos financeiros para aquisição de palma resistente e melhoria das condições de vida dos produtores rurais.
O pesquisador destacou que somente é possível encontrar palma gigante na Paraíba, nas áreas Don Curimataú e em algumas cidades do Cariri, oriental. No entanto, o crescimento das populações de cochonilha é alarmante e a disseminação da praga ocorre de forma muito veloz. Segundo Edson, em pouco tempo as áreas ainda não afetadas pelo parasita deverão ser atacadas, o que aumentará o número de produtores rurais com poucas condições de dar continuidade à pecuária intensiva.
Conforme pesquisas desenvolvidas pela Emepa sobre a propagação e desenvolvimento da cochonilha, a proliferação da espécie acontece por intervenção do trânsito de carros em feiras de animais, e do transporte de palma de uma região para outra. “A transmissão da cochonilha ocorre com muita rapidez. Mas detectamos que isso acontece principalmente por causa do transporte de animais, do contato nas feiras, da compra de palmas em áreas afetadas. Temos buscado conscientizar os vendedores, compradores de palma a tomar cuidados, para pelo menos tardar a chegada da praga das outras regiões que ainda não foram afetadas”, contou Edson Batista.
60% do território afetado em Caturité
O município de Caturité, localizado no Cariri Ocidental, distante 160 quilômetros de João Pessoa, é o maior produtor de leite do Estado, com uma produção diária de mais de 56 mil litros. A cidade que possui maior parte de sua população concentrada na zona rural possui 212 agricultores que trabalham com o cultivo de palma em uma área de mais de mil hectares. Nesta localidade, a praga da cochonilha chegou há pouco mais de um ano. Nesse intervalo de tempo, já provocou uma devastação de quase 60% do território onde há plantação de palma.
De acordo com o técnico da Emater de Caturité, Jonas Tadeu, a palma forrageira é a principal alimentação utilizada pelos agricultores da região. Por causa da infestação da praga da cochonilha, a produção de leite tem sido severamente afetada, já que muitos produtores rurais estão enfrentando dificuldades para manter o rebanho apenas com ração comprada no comércio.
Antes da presença da praga nos palmais, era possível retirar até 100 litros de leite por dia, e atualmente, só é possível retirar entre 58 e 60 mil litros, uma redução de quase 50%. “È um prejuízo imensurável, porque muitas famílias da cidade e de outros municípios vizinhos sobrevivem da renda obtida por meio da comercialização do leite, já que essa região de Caturité se destaca como a maior bacia leiteira da Paraíba. Muitos agricultores estão desesperados, a manutenção do rebanho está ficando muito caro. Tem os produtores de pequeno porte que estão sendo obrigados a se desfazer de seus rebanhos. Isso tudo é muito lamentável”, explicou Jonas Tadeu.
Jonas contou que logo que a cochonilha apareceu na área de Caturité, por volta do mês de março do ano passado, a Emater orientou os agricultores afetados a lavar as folhas da palma danificada com detergente e até a jogar lança-chamas nas raquetes para diminuir a praga.
Ele ressaltou que embora essas alternativas fossem difíceis de realizar por conta das dificuldades para dar conta de centenas de hectares, a medida foi muito eficiente porque embora não tenha sido suficiente para combater a praga, possibilitou que as palmas permanecessem em estado regular até hoje. “Se não tivesse sido feito esse trabalho, as palmas já tinham acabado. Foi um trabalho complicado, cansativo, demoroso, mas mostrou resultado, mesmo porque outra alternativa não tínhamos”, afirmou Jonas.
Para o secretario de agricultura de Caturité, Jair da Silva Ramos, os produtores rurais mesmo prejudicados, ainda possuem esperanças de continuar produzindo leite garantir a cidade o título de maior produtor de leite do Estado.
Rebanhos ficam sem alimentação
A devastação provocada pela cochonilha tem forçado agricultores a abrir mão de rebanhos por causa da falta de condições financeiras para manutenção dos animais. Entre os produtores rurais mais prejudicados, destaca-se Severino Cardoso de Araújo, 71. Ele vive da pecuária há mais de 65 anos e criou sua família de 10 filhos, com a renda adquirida no campo. Agora, depois de tanto lutar para construir sua fazenda, ele se vê diante de uma praga que está lhe tirando tudo que conquistou.
“Quando vejo tudo isso, me dá vontade de chorar, porque sempre lutei tanto, passei por tantas dificuldades para arrumar alguma coisa e do nada esse ‘bicho’ aparece assim e mesmo sendo tão pequeno, está me causando um prejuízo tão grande. Não sei mais o que fazer, estou a beira da loucura”, comentou Severino.
O agricultor mora na fazenda Seixo Branco, distante cerca de sete quilômetros de Caturité. Ele possui uma propriedade que mede 65 hectares, dos quais, seis são destinados ao cultivo de palma para ração dos animais. Os seis hectares de palma estão com 100% de devastação. São 90 animais, incluindo mais de 40 vacas leiteiras que consomem em media, 40 quilos de ração por dia. Sem poder contar com a palma para alimentar o gado, Severino teve que vender 30 cabeças para saldar dividas provenientes do custeio com o rebanho. Suas vacas equivaliam ao preço de R$ 2 mil por cabeça, no entanto, ele só conseguiu vendê-las por R$ 800 cada uma - 60% menos.
A venda dos animais não foi o suficiente para que ele mantivesse sua produção de leite, que caiu de 500 para 250 litros por dia e por isso foi preciso contrair um empréstimo no valor de R$ 15 mil. “Já perdi mais da metade de minha produção, tive que vender umas cabecinhas, contra minha vontade, porque já passei muitas dificuldades, mas nunca deixei meu nome ficar sujo, e não vai ser agora que isso vai acontecer. Estou lutando muito para continuar minha vida de agricultor e pecuarista, mas ta muito difícil”, desabafou Severino.
Ele disse que antes da infestação da cochonilha conseguiu render por mês até R$ 10 mil somente com a venda do leite, agora, o máximo que ele consegue adquirir é entre R$ 4 e 5 mil reais ao mês. Mesmo assim, o apurado não está sendo o suficiente para suprir as despesas com a compra de ração. “Cada saca de farelo de soja custa R$ 42 reais, os outros custam R$ 25 e R$ 28, e ainda mais eu tenho que comprar 200 sacos por mês, e ainda é pouco pra alimentar o meu gado”, contou o agricultor.
Comércio de palma desaparece
A falta de palmas no campo tem deixado comerciantes e consumidores preocupados. Na região do Cariri e nas proximidades do município de Monteiro não existe mais o comércio de palma. Onde ainda é possível encontra a planta é nas feiras de gado, no Curimataú e em Campina Grande, porém em pequeno número.
Um hectare de palma era vendido por até 16 mil, dependendo da qualidade da planta. Como no Estado já foi devastado mais de cem mil hectares, estima-se que a perda total gire em torno de R$ 500 milhões, somando a outras despesas provenientes da escassez da palma.
Assustados com o ataque da praga em áreas vizinhas, produtores de outros municípios do Cariri Oriental, como Cabaceiras, Boqueirão, Barra de Santana e Alcantil, estão se mobilizando para impedir a entrada da cochonilha. Eles estão evitando comprar palmas vindas das regiões infestadas e também tentando controlar o trânsito de carros de animais. “Vamos fazer o que for possível para tentar controlar essa praga em nossa área, mesmo porque sabemos que ela já está muito próxima, mas faremos o que estiver ao nosso alcance, tomando as medidas necessárias e oferecendo suporte aos produtores rurais no enfrentamento”, disse o secretario de agricultura de Cabaceiras, Joanício de Morais Castanha Neto.
Perigos
Numa tentativa frustrada de combater a praga com veneno, Severino quase mata seu filho intoxicado com a substância. “Foi um desespero, porque não sabíamos o que fazer, aí pegamos o veneno e fomos colocar nas palmas, então, de repente, meu menino começou a passar mal e até hoje ele toma remédio controlado para pressão que ficou alterada”, alegou.
Orientado pelos técnicos da Emater a utilizar o capim sorgo, seu Severino disse que suas vacas ainda estão rendendo uma boa quantidade de leite graças à planta. Ele plantou seis hectares de capim sorgo, e diante das necessidades, improvisou um silo, uma espécie de buraco onde o capim é armazenado após ser triturado em uma máquina. 
A silagem de Severino tem 12 toneladas e por dia, ele retira até 300 quilos para alimentar as vacas as quais ele prioriza por conta da produção do leite. “A utilização do capim sorgo tem sido a salvação de muitos agricultores da região, porém, para se desenvolver, o capim necessita de chuvas e como esse ano as chuvas não foram boas, ai as coisas ficaram mais complicadas.

Por: Daniel Motta/Correio da Paraíba

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