O número de feiras especializadas no comércio de frutas, verduras e hortaliças produzidas sem agrotóxicos aumentou três vezes, desde 2003, na Paraíba, segundo informações do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) no Estado. A estimativa é de que, hoje, existam 25 dessas feiras sendo realizadas em municípios do Litoral ao Sertão paraibano, através de 38 associações de

agricultores. A produção dos agroecológicos já está mudando a vida de aproximadamente 500 agricultores em mais de 70 municípios do Estado.

A expansão do negócio tem se refletido diretamente no aumento de clientes que buscam nos produtos orgânicos uma alimentação mais saudável. Quando se pensa no bolso, o crescimento do público consumidor também se justifica: os preços cobrados nas feiras agroecológicas já se mostram bem mais competitivos. Em alguns casos, os orgânicos chegam a ser mais baratos do que os hortifruti com defensivos químicos nas grandes redes de hipermercados.

Saber ao certo quantos agricultores de produtos orgânicos existe no Estado e quanto o negócio movimenta em dinheiro por mês ainda é uma incógnita para entidades que trabalham com o setor. Só em João Pessoa, existem cerca de 350 produtores cadastrados. Como as feiras agroecológicas ocorrem apenas uma vez por semana, estima-se que os produtores menores consigam tirar, mensalmente, uma média de um salário mínimo das vendas.

João Pessoa tem a maior parte das feiras de orgânicos do Estado: são três fixas e uma itinerante que percorre quatro localidades. Esta última funciona em estrutura organizada em um ônibus, que também leva os produtos toda sexta-feira ao bairro de Intermares, em Cabedelo. As frutas, verduras e hortaliças vêm de granjas localizadas na Zona da Mata paraibana.

A produtora Joana D’Arc Rodrigues de Lima, que possui uma granja em Jacarapé, na Capital, é uma das responsáveis pelas vendas na feira itinerante. A propriedade serve como base para a organização da feira. “Participamos de uma associação, a ProHort-JP, que conta com 51 produtores, dos quais apenas 21 estão produzindo. Toda a produção a ser comercializada é recolhida das granjas à tarde e concentradas no nosso ponto base, em Jacarapé. Lá, o ônibus é higienizado e organizado para, no amanhecer do dia seguinte, se dirigir ao local da feira itinerante”, explicou. O ônibus chega por volta das 4h30 no bairro programado. A essa hora, segundo Joana D’Arc, já existem consumidores aguardando. As vendas se estendem até a metade da manhã.

Mais saudável

Há quatro anos, quando a feira itinerante passou a acontecer às quartas-feiras, no bairro de Manaíra, em João Pessoa, a esteticista Mari Mendonça se tornou uma cliente assídua. Atualmente, mesmo tendo se mudado para um bairro vizinho, ela continua a frequentar a feira. “Optei por comprar aqui por encontrar produtos de maior qualidade, naturais, o que se reflete em mais saúde e qualidade de vida para nós. Compro semanalmente e indico para muitas outras pessoas”, destacou. O zootecnista e sanitarista Francisco Lacerda é outro consumidor fiel. Ele disse que só opta por comprar hortifrúti em supermercados, quando não encontra mais o que precisa na feira. “Acho que estes produtos representam um bem em longo prazo. É um investimento em saúde, em qualidade de vida. Mesmo que saísse mais caro, acho que vale muito a pena comprar aqui com os produtores”, assegurou.

Agroecológicos já têm preços competitivos

Muitas pessoas pensam que comprar orgânicos é gastar mais dinheiro. Mas os produtores garantem: isso é mito. A reportagem foi a campo para conferir de perto a realidade e, de fato, comprovou que, em muitos casos, adquirir frutas, verduras e hortaliças sem agrotóxicos em feiras agroecológicas saem mais em conta do que comprar os mesmos produtos desenvolvidos com uso de defensivos químicos, em grandes redes de supermercado. Em uma análise geral, os preços estão bastante competitivos.

Segundo Mariana Borba, pesquisas realizadas recentemente pelo Grupo de Ergonomia Agrícola e Gestão Ambiental (GEA) da UFPB comprovaram que os valores cobrados em supermercados são bem maiores. “Os produtos comercializados nas Feiras Agroecológicas possuem preços mais baixos do que os produtos convencionais dos supermercados. Os produtos bem acima da média do mercado são aqueles comercializados pelas grandes redes, que se aproveitam da propaganda ‘orgânica’ e do selo de garantia para cobrar preços absurdos”, assegurou.

Nas feiras, produtores e clientes defendem os orgânicos. “Estamos há mais de um ano, por exemplo, com o preço do quilo do tomate congelado em R$ 2,50. Em supermercados, os produtos que nem são orgânicos, são tabelados através de promoções, mudando de valor quase todo dia. Hoje pode estar barato, enquanto amanhã estar mais caro”, explicou a produtora Joana D’arc. “No fim das contas, as coisas na feira orgânica são bem mais em conta. Chego a encontrar produtos pela metade do preço do que é oferecido nos supermercados”, garantiu a esteticista Mari Mendonça, cliente da feira itinerante de Manaíra.

Na última quarta-feira, a reportagem listou dez produtos vendidos na feira agroecológica itinerante em Manaíra e comparou o valor deles com produtos que usaram agrotóxicos em seu cultivo, comercializados em dois hipermercados da Capital. Resultado: 60% dos produtos estavam mais baratos na feira.

Cadastro no Mapa é obrigatório

Os alimentos orgânicos comercializados nas feiras agroecológicas da Paraíba não necessitam de um selo assegurando a qualidade deles. Contudo, a associação de produtores responsáveis pelos produtos vendidos deve estar cadastrada no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). A informação é de Virgínio Carneiro, coordenador da Comissão da Produção Orgânica da Paraíba (CPOrg-PB), que é vinculada ao órgão federal. Segundo ele, contudo, a venda de produtos orgânicos em gôndolas de supermercado precisa de certificação prévia para ocorrer.

A produção sem uso de defensivos químicos passou a ter o mercado regulado a partir da criação da Lei Orgânica, em outubro de 2003. Com a legislação, foram criadas representações da CPOrg em todos os Estados do País, para se discutir, periodicamente, os desafios da produção e comercialização dos alimentos orgânicos. As comissões buscam promover o desenvolvimento da agricultura orgânica, dando apoio a associações de agricultores ou conjunto de produtores independentes. Na Paraíba, existem 38 dessas associações – também chamadas de Organizações de Controle Social (OCS), segundo dados do Mapa.

Com a vigência da Lei 10.831, a partir do último dia 1º de janeiro, as associações passaram a ser cadastradas pelo CPOrg-PB. O procedimento não configura apenas uma questão de organização. “Cadastradas, elas recebem termo de certificação como agroecológicas, o que agrega valor ao alimento que produzem. Além disso, elas passam a receber 30% a mais da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e têm direito a financiamentos específicos do Banco do Brasil a produtores agroecológicos, por exemplo”, explicou Virgínio.

As feiras agroecológicas desenvolvidas na Paraíba são de responsabilidade dos agricultores integrantes das OCS do Estado, que obrigatoriamente precisam ser cadastradas no Mata. “Como nas feiras é realizado comércio direto entre o produtor e o consumidor, não se faz necessária certificação. Porém, em produtos orgânicos comercializados em gôndolas de supermercado, o selo orgânico é exigido por lei”, explicou.

“Agrotóxico não é veneno”

Apesar da defesa dos produtos orgânicos como principais indicados para uma alimentação saudável, Virgínio Carneiro, coordenador da Comissão da Produção Orgânica da Paraíba (CPOrg-PB), do Mata, atentou que os alimentos cultivados com defensivos químicos não necessariamente são sinônimo de veneno. Segundo ele, é preciso seguir orientações de um agrônomo, para que a química seja utilizada de maneira a defender os alimentos cultivados da ameaça de pragas e, assim, render produtos de qualidade.

“O risco dos agrotóxicos está no uso abusivo deles, que ocorre, geralmente, quando o agricultor não é orientado por técnicos. Utilizando os produtos químicos de forma indisciplinada, pode-se promover a contaminação do próprio alimento, além do solo e dos mananciais”, atentou. O agricultor que aplica o defensivo químico também pode sofrer com problemas de saúde. Os produtos que utilizam agrotóxico em seu cultivo são fiscalizados e acompanhados, até receberem certificação para serrem comercializados. O consumidor precisa ficar atento para os selos que atestam a boa procedência destes alimentos.

Renda de produtores orgânicos cresce 70%

Os agroecológicos estão mudando a vida de aproximadamente 500 agricultores de mais de 70 municípios do Agreste, Cariri, Curimataú, Brejo e Sertão do Estado. Com o desenvolvimento da agricultura familiar associado à produção de agroecológicos, as famílias que deixaram de lado a agricultura tradicional para se dedicar ao cultivo de hortas de produtos sem fertilizantes, estão alcançando, entre outras vantagens, aumentar a renda em mais de 70% em relação ao que conseguiam com a agricultura tradicional.

A produção agroecológica é bastante diversificada. Os agricultores cultivam hortaliças, verduras e até frutas, tudo sem nenhum tipo de agrotóxico. Plantados em pomares improvisados, fortalecidos com esterco natural, obtido através de fezes do gado e irrigado com água de poços, os produtos são vendidos em feiras agroecológicas, que acontecem geralmente às quartas-feiras, nas cidades-polo. Além disso, boa parte dos produtores rurais ainda vende para programas do Governo Federal, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Assim, eles além de terem uma renda garantida, ainda contam com a vantagem de comercializar diretamente com os órgãos, dispensando a presença do atravessador.

Os agricultores calculam que por mês, é possível obter mais de R$ 1.000. Para eles, o desenvolvimento da agricultura familiar e o cultivo de agroecológicos tem sido nos últimos anos, a maior revolução da agricultura na Paraíba, que antes, para ser praticada, dependia exclusivamente de boas condições climáticas. “Se não chovesse não se conseguia lucrar nada.

O comércio parava porque o homem do campo dependia totalmente das chuvas. Hoje, ainda dependemos muito é claro, mas já é possível se virar, plantando nas várzeas, furando poços e cultivando os produtos sem precisar de nada de químico. Isso movimenta as feiras e mesmo na seca, pode-se encontrar verduras, frutas e hortaliças verdinhas e saudáveis no comercio de toda a Paraíba”, destacou o agricultor Paulo Ferreira, 70, da cidade de Lagoa Seca, no brejo paraibano.

Família unida pelo trabalho

Paulo é o maior produtor de agroecológicos da região de Lagoa Seca. Além dele, mais 50 agricultores sobrevivem da agroecologia. Junto os filhos e netos e sobrinhos, ele cultiva pomares que tomam dois hectares de sua propriedade, localizada há menos de quatro quilômetros da zona urbana.

Ele começou a cultivar produtos sem fertilizantes há cerca de dois anos e desde então, sua vida, tanto financeira, quanto familiar teve um significativo sobressalto. “Hoje, todos trabalham comigo aqui nas hortas, e o dinheiro que é lucrado é pra o sustento de mais três famílias que vivem no sítio. Eu não deixo eles irem em busca de emprego fora, porque aqui mesmo eles podem trabalhar e ter uma vida digna. Além disso, os nossos hábitos alimentares hoje estão bem mais saudáveis”, contou Paulo.

O agricultor explicou que vende suas variedades em quatro feiras agroecológicas de Campina Grande, em uma de Lagoa Seca e ainda em outra do Bessa em João Pessoa, além de exportar para outros estados, como Ceará e Rio Grande do Norte. “Em cada feira, nos conseguimos vender mais de 400 reais. Duas ou três vezes ao mês mandamos para Juazeiro do Norte, no Ceará, e em Natal. Graças a Deus a procura tem aumentado muito nos últimos tempos, porque as pessoas estão vendo que é preciso ter uma alimentação sadia”, explicou Paulo.

Segundo ele, para evitar pragas na lavoura, utiliza uma espécie de caldo de castanha de álcool destilado, num processo que demanda mais de 45 dias para ficar pronto para a inserção nas plantas. “Dá muito trabalho, mas é muito melhor”.

CP - Alysson Bernardo e Daniel Motta/ Vitrine do Cariri


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