Livro estabelece a real dimensão de Luiz Gonzaga como um dos inventores da cultura brasileira
Quando vestiu a roupa de cangaceiro, formou um conjunto com os acordes da sanfona, a marcação metálica do triângulo e a pulsação rítmica da zabumba, Luiz Gonzaga inscreveu o seu nome da galeria dos inovadores da cultura brasileira. Estávamos na década de 1940 e só nos anos 1960 o Cinema Novo ousaria colocar o cangaceiro Corisco como protagonista de Deus e o diabo na terra do sol (de Glauber Rocha) e a Tropicália usaria as roupas de Hélio Oiticica como elementos de uma performance estética. Sem qualquer pretensão, Luiz Gonzaga foi o primeiro artista pop da cultura brasileira. E, finalmente, chega um livro para estabelecer a real dimensão de Gonzagão como inventor e não apenas repetidor ou mantenedor da tradição nordestina, como destaca o livro O rei e o baião, organizado por Bené Fonteles, com participações de Gilberto Gil, Hermano Viana, Antônio Risério, entre outros.
Claro que Gilberto Freyre, Ariano Suassuna e Glauber Rocha já haviam colocado em primeiro plano a cultura nordestina no campo erudito: "Mas o Luiz era um inventor e um inovador no plano da cultura popular", enfatiza Bené. "Como diz o Antônio Risério, ele é o cara que reinventou o Nordeste".
Bené ficou impressionado com uma das primeiras fotos de Luiz Gonzaga, em que ele aparece vestido com roupa de cangaceiro, acompanhado pelos músicos Catamilho (zabumba) e Zequinha (triângulo), metidos em um traje de gala de vaqueiro como se fossem integrantes de um conjunto norte-americano prontos para se apresentar no antigo Cassino da Urca nos anos 1940. "Era preciso muita coragem para fazer isso naquele tempo. Ele foi proibido de cantar com aquela indumentária nordestina em um programa de rádio de 1940. Gonzagão descolonizou o Brasil, colocou o Nordeste dentro do debate cultural brasileiro. Pela primeira vez, o Sul passou a consumir a música nordestina, todo mundo só queria dançar o baião".
Era estratégico que tenha reinventado o Nordeste a partir do Rio de Janeiro, modernizando os ritmos regionais, mas sem nunca perder o contato com as raízes de sua cultura. O acordeon chegou ao Nordeste pelas mãos dos mascates judeus sefarditas vindos de Portugal, que atravessavam os sertões poeirentos puxando o fole e chamando a atenção para os seus produtos. "Luiz Gonzaga inventou uma nova maneira de tocar a sanfona e harmonizá-la com os outros instrumentos. A sanfona e o acordeon só eram usados para tocar tangos e valsas".
O livro conta a história de Seu Lua, como era chamado, e destaca a sua relevância na cultura brasileira por meio de um rico diálogo entre textos, fotos e xilogravuras. É a primeira vez que se faz, em livro, um levantamento da iconografia do cantor, de 1940 a 1960, seu período mais fértil. Um ensaio fotográfico de Gustavo Moura revela os personagens e a paisagem agreste. Além disso, Bené encomendou imagens a dois dos mais talentosos gravuristas da arte popular nordestina: José Lourenço e João Pedro de Juazeiro. "Realizei uma montagem entre os ensaios escritos e os visuais. Acho que o Gonzagão ficaria satisfeito em ver o povo dele no livro, sem distinção entre erudito e popular. O livro já inspirou dois documentários sobre Luiz Gonzaga, um de Sérgio Roizenblit e outro de Rosemberg Cariri."
O legado de Gonzagão
Bené Fontelles conheceu Luiz Gonzaga graças ao estímulo do seu pai, o cearense José Ribamar, que tinha a discografia completa do Rei do Baião. Em 1971, aos 18 anos, Bené escreveu e montou o espetáculo Luiz Lua com dois objetivos: mostrar a vida e a obra de Gonzagão para as novas gerações e o impacto dele na geração de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo. Tudo era mostrado em praça pública.
Em 1972, Bené armou-se de coragem e resolveu procurar Luiz Gonzaga, de passagem por Fortaleza. Foi muito bem recebido por Gonzagão, que fez questão de o levar até uma discoteca para que ouvisse o seu último LP. Lá, Bené pôde assistir a um instante único: Gonzagão chorou ao ouvir pela primeira vez Caetano Veloso cantar "Asa branca".
"Daí para frente nunca mais perdemos o contato. Ele era muito generoso, tinha mais de 400 afilhados e deu de presente mais de 300 sanfonas. Quando gravei o meu primeiro disco, ele disse que faria uma participação, mas não queria nada postiço. Ele queria fazer um aboio de vaqueiro, pois as gravadoras não permitiam este tipo de canto..
Na pele de Lampião
"Naquela época, eu percebia que todo cantor regional, todo cantor estrangeiro tinha uma característica própria. O gaúcho, aquela espora, bombacha, chapelão. O caipira tinha lá o seu chapéu de palha. O carioca tinha a famosa camisa listrada e o chapéu-coco. Os americanos, os cowboys. Quando Pedro Raimundo veio pra cá vestido até os dentes de gaúcho, eu me senti nu. Eu digo: "Por que o Nordeste não tem a sua característifca? Eu tenho que criar um troço". Só pode ser Lampião. Apanhei por causa de Lampião. Eu digo: "Eu vou usar o chapéu de Lampião". Aí escrevi para a mamãe pedindo um chapéu de cangaceiro com toda urgência. No primeiro portador que ela teve, ela mandou o chapéu.
Rapaz, quando eu botei o pé no palco da Rádio Nacional só faltaram me matar de raiva. "Como é que você, um mulato formidável, um artista fabuloso, se passa por um negócio desse? Reviver o cangaço, cangaceiros, facínoras, ladrões, saqueadores? "Eu disse: "Não se trata disso. É outra coisa. Eu agora sou um cangaceiro musical. Aí fique com essa característica".
O Norte - Severino Francisco